Sinais de Alerta

Por Revista Vencer Edição ( n° 71 )

No livro O Corpo no Trabalho – Guia de Conforto e Saúde para Quem Trabalha em Microcomputadores (Editora Senac São Paulo), o consultor em ergonomia Primo A. Brandimiller sugere prestar atenção em sintomas recorrentes de dor, principalmente nas seguintes regiões: nuca, pescoço, parte alta, média (entre as omoplatas) e baixa (na altura dos rins) das costas, braços, cotovelos, punhos, antebraços, nádegas ou coxas, joelhos e pernas ou pés. Segundo Brandimiller, qualquer desconforto deve ser levado em consideração. Ele aconselha evitar recorrer a analgésicos, relaxantes musculares e, principalmente, antiinflamatórios – dependendo da causa, esses medicamentos de nada adiantam e ainda podem gerar distúrbios gástricos e sanguíneos. Vale a pena compartilhar suas impressões com os colegas, que também podem vir atravessando os mesmos problemas. O livro traz ainda testes para verificar a fadiga visual e a intensidade dos sintomas, além de um roteiro para avaliar as condições de trabalho.


Sabemos que a humanidade, de maneira geral, tem trabalhado cada vez mais. Essa comprovação não diz respeito apenas ao excesso de atribuições e tarefas, mas também ao número de horas transcorridas entre quatro paredes dedicadas à profissão. Prazos apertados, exigências, imprevistos e decisões rápidas fazem parte do cotidiano de muita gente e, por mais cansativo que tudo isso seja, é preciso enfrentar os problemas e encontrar soluções para eles, diariamente.
Outros fatores, porém, podem ajudar a prejudicar a qualidade de vida e o bem-estar de quem trabalha e, pior, sem que se dê conta. É o caso de cadeiras e mesas inadequadas, tempo excessivo em frente ao computador, movimentos repetitivos, iluminação ruim e até o jeito incorreto de se sentar ou o amontoado de papéis sobre a mesa.
“Esses males ocultos do escritório acabam minando a energia das pessoas, deixando-as irritadiças, cansadas e improdutivas”, comenta a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association (Isma Brasil), com sede em Porto Alegre, RS. “A produtividade cai mesmo e a margem de erros aumenta”, completa Cecília Shibuya, vice-presidente de eventos e relações institucionais da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV). “Felizmente, algumas empresas têm mudado sua mentalidade e prestado mais atenção nas condições de trabalho de seus funcionários, apostando em recursos como a ginástica laboral”, diz Cecília. Em todo caso, é bom saber identificar quais são esses inimigos e como se defender deles usando as armas possíveis. Veja os principais:

Movimentos doloridos
As lesões por esforço repetitivo (LER), hoje em dia também denominadas de distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT), atingem principalmente quem lida o dia inteiro com o computador – em especial as mulheres, por razões ainda não explicadas. A dor acomete o punho, mas a pessoa também pode sentir fisgadas no antebraço. “Para evitar essas doenças, é importante nunca deixar o mouse na mesma altura da tela do computador”, afirma a médica Sylvana Braga, de São Paulo, especializada em medicina ortomolecular e reumatologia. “O teclado também não deve ser colocado sobre a mesa, e sim um pouco mais abaixo”, completa o ortopedista Ricon Jr., do Centro Ortopédico de Ipanema, no Rio de Janeiro.

Ausência de pausas
Pesquisadores da Universidade de Queensland, na Austrália, descobriram recentemente que os músculos de sustentação de homens que permaneceram por oito semanas em repouso se tornaram tão inativos quanto os de pacientes que se queixam de dor nas costas, principalmente na parte inferior (lombar). A conclusão evidencia que certos descuidos posturais – como passar horas e horas em frente ao computador – pode representar sérios riscos à saúde. O ortopedista Eduardo Pereira, do Hospital Santa Paula, de São Paulo, avisa que a coluna funciona como uma pilha de tijolos, onde as vértebras inferiores sustentam todo o peso.
“Quando estamos sentados, não temos as pernas para ajudar a carregar o peso e acabamos forçando a base da coluna. Além disso, longos períodos de inatividade enfraquecem e encurtam os músculos que dão sustentação para a espinha dorsal”, afirma Eduardo. Para evitar dores nas costas, ele recomenda levantar a cada meia hora para esticar as pernas e dar uma voltinha para ativar a musculatura. “Isso é fundamental, também, para descansar a cabeça e os ouvidos se o local de trabalho for excessivamente barulhento. Momentos de descanso são extremamente necessários”, diz Ana Maria Rossi, da Isma Brasil. “Alongar-se, como se estivesse se espreguiçando, forçando o corpo para cima, também é bom, além de procurar prestar atenção na respiração”, diz Cecília Shibuya, da ABQV. É fundamental, ainda, sentar-se na posição correta, com a coluna ereta, e manter a musculatura bem alongada e fortalecida.

Uso inadequado do computador
Ardor, vermelhidão, vista cansada e visão duplicada são alguns dos sintomas da síndrome ocular do usuário de computador, além de dor de cabeça constante, tremor involuntário da pálpebra e dificuldade para enxergar, acompanhada da sensação de areia nos olhos. “O uso excessivo do computador em escritórios com iluminação precária tende a favorecer o surgimento de doenças da visão, principalmente para quem já passou dos 40 anos”, conta o oftalmologista Renato Neves, diretor da rede Eye Care, em São Paulo.
Um estudo publicado pelo National Institute of Occupational Health and Safety revelou que aproximadamente 90% dos trabalhadores que passam mais de três horas por dia diante da tela do computador sofrem de algum distúrbio da visão. Para evitar disfunções, a médica Sylvana Braga recomenda que a distância ideal é de cerca de dois palmos abertos a partir do nariz até a tela. “A altura adequada é aquela em que os olhos fiquem posicionados no meio da tela”, diz. Além disso, vale a pena pingar gotas de colírio para lubrificar o globo ocular, de vez em quando, e, se possível, fechar os olhos por um período de 15 minutos no meio do dia.
Últimos conselhos: jamais posicione o monitor diante de uma janela, já que o excesso de luz na direção dos olhos terá efeito duplicado. É necessária, ainda, uma iluminação adequada sobre a tela. “E não se esqueça das consultas periódicas ao oftalmologista. Até os 40 anos, a pessoa deve passar por um exame completo de visão de três em três anos; entre 40 a 65 anos, esse período cai para dois anos. Após os 65, os exames precisam ser anuais”, sugere Neves.

Cadeiras e mesas em dia
A mobília é um fator de extrema importância para a qualidade de vida e o bem-estar do funcionário em uma empresa. De acordo com o ortopedista Ricon Jr., diretor do Centro Ortopédico de Ipanema, o melhor modelo de cadeira é o que apresenta o assento e o encosto estofados.
“O espaldar deve ser vertical e rígido, para que a coluna possa se apoiar integral e confortavelmente, e a altura precisa ser regulada em função da estatura de quem a utiliza”, afirma. “Um dos maiores fatores de lombalgia é a chamada cadeira do executivo, que reclina quando ele se apóia no espaldar. Esse tipo de móvel obriga o usuário a manter a musculatura para-vertebral permanentemente tensa.”
A recomendação é eliminar esse chamado “relax” da cadeira ou substituí-la por um modelo de encosto rígido, mais anatômico. Para quem fica muito tempo trabalhando no computador, são boas as cadeiras com apoio regulável para os antebraços, o que alivia a tensão dos membros superiores e ajuda a prevenir a LER.
Se o funcionário trabalhar em mesa convencional, uma cadeira com rodízios poderá ser útil, pois evitará as torções de coluna. Por falar nisso, a mesa de trabalho não deve ser a mesma onde fica o computador - a não ser que a pessoa passe o tempo todo em frente à telinha. As mesas de escritório, em geral, têm altura-padrão, que permitem trabalhar confortavelmente. “mas atenção: as pernas devem ser mantidas em flexão de 90 graus”, informa Sylvana Braga.

Excesso de café
Não há mal nenhum em chegar ao escritório e tomar um cafezinho. Ele também é item obrigatório de algumas reuniões e, convenhamos, não há nada mais relaxante que uma paradinha para beber uma xícara ao lado dos colegas no meio da tarde. O problema é que muita gente nem se dá conta de que se entope de café o dia inteiro, atitude que pode ser extremamente prejudicial para a saúde.
“A quantidade máxima indicada é de, no máximo, cinco expressos diários. Se o café for feito em coador, é possível aumentar mais dois copos”, recomenda a nutricionista Vanderlí Marchiori, de São Paulo. Segundo ela, a cafeína é altamente estimulante e, portanto, deve ser evitada a partir das cinco da tarde, pois há o risco de o ciclo do sono e o trabalho de manutenção dos órgãos durante a noite ser prejudicado. Outra sugestão: prefira tomar o café puro, sem açúcar, que fermenta muito, e sem adoçante.

Telefone apoiado no ombro
Muita gente costuma ouvir o outro lado da linha e anotar, ao mesmo tempo, as informações que a pessoa está passando. A mania de apoiar o telefone no ombro, deslocando o pescoço para o lado, é comum nos escritórios. Esse hábito força demais a musculatura do pescoço e pode causar dores, distensões e dormências nos braços e nas mãos e até torcicolo. “É uma posição forçada que prejudica demais a coluna cervical, causando uma doença que se chama cervicobraquialgia, muitas vezes confundida com LER ou DORT”, completa o reumatologista José Knoplich, de São Paulo. O ideal, nessa situação, é usar um fone de ouvido.

Frio glacial
Segundo o ortopedista Ricon Jr., do Rio de Janeiro, as primeiras pesquisas sobre as LER foram feitas em grandes empresas de informática, cujos equipamentos precisavam operar em baixas temperaturas. “Observou-se que a incidência da enfermidade era inversamente proporcional à temperatura ambiente, ou seja, quanto maior o frio, mais numerosos eram os casos de tendinites no punho.
Hoje em dia, com a popularização dos micros e laptops, não há mais necessidade de manter um frio glacial em grande parte dos escritórios”, acrescenta. Mas não é o que acontece. Infelizmente, por falta de informação o ar-condicionado é regulado numa temperatura tão gélida que quem sofre de sinusite, por mais agasalhado que esteja, sai da empresa com a cabeça martelando.
“A temperatura ideal deve ser de até 16 graus num dia quente. O ar-condicionado provoca em muita gente o aparecimento de dores por todo o corpo, mal conhecido como fibromialgia. Se o ar é dirigido sobre determinadas áreas, em vez de abranger todo o ambiente, precisa ser melhor direcionado”, atesta o reumatologista José Knoplich, de São Paulo.

Bagunça e desorganização
Pelas regras do Feng Shui, técnica de harmonização de ambientes que surgiu há mais de cinco mil anos na China, a mania de juntar coisas – principalmente papéis – facilita o bloqueio de energia, tornando o ambiente tenso, carregado, improdutivo. Faça uma faxina nos seus armários e gavetas todo mês e evite acúmulos desnecessários.
“Mesmo que a desorganização não seja fruto de seus afazeres, não custa nada arrumar uma pilha de revistas ou organizar os livros da sala em que trabalha de vez em quando. Arregace as mangas! Você vai ver que o custo-benefício compensa”, diz Ana Maria Rossi, da Isma Brasil.
O Feng Shui prega, ainda, que não é bom colocar a mesa nem de lado nem de costas para a porta – é importante sempre controlar o fluxo de pessoas que entram e saem da sala. O ideal é ter as costas protegidas por uma parede e evitar ficar de costas para espaços abertos, para não ser objeto de energias negativas.
Para atrair sucesso e prosperidade, coloque um objeto de decoração (pode até ser um porta-lápis) vermelho ou amarelo, cores vibrantes que, segundo as leis dessa filosofia oriental, são sinônimos de sucesso. Plantas espalhadas pelo escritório alegram e também atraem boas energias.

Decoração impessoal
Na opinião de Sylvana Braga, vale a pena investir em tudo o que tornar o ambiente de trabalho mais confortável, bonito e colorido. É óbvio que você não precisa encher a mesa de bibelôs (afinal, você está em uma empresa), mas colocar um porta-retratos com a foto da família, por exemplo, pode dar força mental e funcionar como um link interno para desenvolver melhor a sua atividade.
“A tela de descanso do computador também pode apresentar a imagem de uma bela paisagem”, sugere Cecília Shibuya, da Associação Brasileira de Qualidade de Vida. “Tudo isso ajuda a minimizar o cansaço nos momentos difíceis”, pondera Sylvana. “E, também, a se sentir integrado à empresa. É claro que amar o que você faz é o mais importante de tudo. Mas se sentir confortável no ambiente de trabalho conta muitos pontos”, finaliza Cecília.




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